Charge do brilhante RPN. Tudo começou em 1984. Mentira: deve ter começado um pouco antes, mas aquele garotinho passou a entender o que era paixão pelo futebol exatamente naquele ano de 1984, quando o Santos sagrou-se campeão paulista em cima do Corinthians. O garoto não sabe quando, especificamente em que dia ou mês, mas nas brincadeiras de futebol na rua – um terreno baldio que servia como Maracanã – passou a jogar no gol e, desde as mais simples intervenções às defesas espetaculares, gritava “Rodoooooolfo Rodrigues!!!”
A primeira idolatria, de muitas que viriam mais tarde. O ser humano tem essa estranha necessidade de eleger ídolos em diversas áreas. Para este garoto, no futebol, o primeiro ídolo foi o goleiro uruguaio Rodolfo Rodrigues; só depois vieram Pelé, Pepe, Feitiço, Araken, Coutinho, Zito, Gilmar...
Para a garotada atual é muito fácil ver e rever as jogadas e gols destes mitos do futebol. Imagens, textos e fotos estão disponíveis a partir de um simples clique. Mas na metade da década de 80 não era fácil. Aliás, não era fácil ser um jovem santista no final da década de 80 e anos 90.
Querem uma boa definição de “bullying”, termo que antes era mais conhecido como “zoeira”? Ser o único santista da escola inteira e sofrer com Ijuí, Edson Ampola, Neizinho, Camilo e Serginho Fraldinha - só para citar alguns.
Mas como essas coisas de paixão não se explicam, o garoto, quer dizer, o adolescente, só fez ficar mais apaixonado ainda pelo time que abrigou e abrigava tantos craques e pernas de pau que se tornaram, de alguma forma, inesquecíveis: pernetas, mas raçudos que saíam com o uniforme imundo do charco que era o “gramado” da Vila Belmiro. E como era difícil ganhar do Santos dentro de seus domínios!
E o tempo passou. O adolescente terminou o colégio, entrou para a faculdade e para a vida adulta, arrumou emprego, carteira de motorista, outros ídolos surgiram, novas paixões floresceram, novas ideias e concepções políticas, culturais, comportamentos. Apenas uma coisa não mudou durante todo esse tempo com tantas transformações: a paixão pelo SantosFC. Paixão que pode até estremecer em algum momento ou outro, é verdade. Isso acontece nos melhores relacionamentos.
No entanto o sentimento permanece e, com o coração mole típico de quem é eterno apaixonado, sempre se perdoa. E é graças à tamanha paixão que péssimos administradores, além daqueles ingratos incapazes de entenderem a grandeza e a honra que é envergar o manto simplesmente passam, recebendo o desprezo e escárnio da torcida, enquanto o SantosFC continua trilhando seu caminho de glórias no presente e zelando por um passado que, ao contrário do que acontece habitualmente, não é esquecido. História é para quem tem o que contar.
E sempre surge um Sérgio, Almir, Paulinho, Guga, Giovanni ou um moleque abusado como Diego, Robinho, Neymar para despertarem novas idolatrias e paixões em meninos, meninas e jovens. Como aconteceu com aquele garoto, hoje um adulto, que ainda se emociona ao buscar na memória o tempo em que gritava “Rodooooooolfo Rodrigues!!!” e "goooool...do Santos!!!"